O que fica quando o definitivo vai embora
Há palavras que parecem promessa e são sentença. Definitivo é uma delas.
Por anos, o preenchimento com PMMA — polimetilmetacrilato — foi vendido assim: um volume que não vai embora, uma forma que se fixa, um resultado para sempre. O para sempre, porém, tem dois lados. O que não sai quando agrada é o mesmo que não sai quando adoece.
Em 1º de junho de 2026, o Conselho Federal de Medicina publicou a resolução nº 2.461/2026. A partir do dia seguinte, o uso injetável do PMMA por médicos em preenchimentos na pele passou a ser proibido em todo o Brasil — com finalidade estética ou reparadora. A única exceção prevista é o tratamento da lipodistrofia em pacientes com HIV/aids, e ainda assim apenas em unidades de alta complexidade credenciadas pelo SUS.
A norma trata do ato médico. Mas a conversa é maior do que uma categoria profissional. A conversa é sobre o corpo de quem confia.
O que é o PMMA
O PMMA é um plástico transparente. Na estética injetável, apresenta-se como um gel com microesferas e funciona como preenchedor permanente — facial e corporal. Permanente é a palavra-chave. Diferente de outros materiais que o corpo reabsorve com o tempo, o PMMA fica. Entremeia-se nos tecidos. Faz morada.
E é justamente essa permanência que está no centro da decisão.
Por que a medicina recuou
A relatora da resolução, cirurgiã plástica e conselheira do CFM, descreveu o que pode acontecer ao longo do tempo: reação inflamatória crônica, formação de granulomas, migração do material pelo corpo, alterações nos níveis de cálcio, comprometimento renal.
O risco não está apenas no momento da aplicação. Está no depois. No que se acumula em silêncio, no que aparece anos mais tarde, no que já não se pode retirar.
Vale registrar a tensão que existe aqui. A Anvisa mantém posição de que os produtos de PMMA registrados têm relação risco-benefício aceitável dentro das indicações aprovadas. O CFM, olhando para a prática clínica e seus desfechos, escolheu restringir. Duas leituras de uma mesma substância. E, no meio delas, um corpo que precisa decidir.
O que isso muda para você
Se você pensava em preenchimento permanente, esta é uma boa hora para pausar.
Não porque toda escolha definitiva seja errada. Mas porque o corpo muda, o gosto muda, a vida muda. E o que se fixa não acompanha.
Existem hoje caminhos seguros para volume, contorno e firmeza — bioestimuladores de colágeno que trabalham com o organismo, estimulando o que ele mesmo sabe produzir, e tantas outras abordagens pensadas para somar sem cobrar um preço irreversível.
Aqui, nada é definitivo no sentido que assusta. O que buscamos é outra coisa: o cuidado que permanece porque foi bem-feito, não porque ficou preso.
Antes de qualquer procedimento, uma pergunta
Pergunte sempre o que está entrando no seu corpo. De onde vem, o que faz, o que acontece se você mudar de ideia. Um bom profissional não teme essa pergunta — ele a espera.
E se quiser conversar sobre alternativas seguras, com calma e sem pressa, a nossa porta verde está aberta.
Porque cuidar de você também é dizer não ao que não cuida.

